A pesquisa Benjamin Button

Toda pesquisa eleitoral é, por definição, uma fotografia do passado. O problema desta edição do Datafolha é que o passado chegou mais rápido do que o costume.

Há um personagem famoso na literatura americana, imortalizado no cinema por Brad Pitt, que nasce velho e envelhece em direção à infância. Benjamin Button é uma anomalia encantadora da ficção: alguém que percorre o tempo na contramão. A pesquisa Datafolha divulgada hoje, 16 de maio, sobre a corrida presidencial de 2026 lembra um pouco esse personagem, mas com uma diferença crucial que o próprio F. Scott Fitzgerald talvez não imaginasse: esta pesquisa nasceu velha e morreu velha. Não há rejuvenescimento no horizonte.

O levantamento, realizado entre os dias 12 e 14 de maio e publicado pela Folha de S.Paulo, mostra Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) empatados com 45% cada num cenário de segundo turno. Os números praticamente repetem a fotografia de abril, quando o Datafolha também apontou empate entre os dois no segundo turno, com Lula igualado ainda a Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD). Em outras palavras: depois da semana agitada, o termômetro registrou a mesma febre de antes. O país mudou; o ponteiro, não.

O Problema do Retrovisor

Toda pesquisa eleitoral é, por definição, uma fotografia do passado. Os institutos capturam o humor do eleitor em determinado momento, e os dados chegam ao público com dias de defasagem. Isso é normal, esperado, e os próprios institutos dizem isso na metodologia. O problema desta edição do Datafolha é que o passado chegou mais rápido do que o costume.

A esmagadora maioria das entrevistas foi realizada antes de quarta-feira, 13 de maio. Data em que o site The Intercept Brasil publicou o áudio de Flávio Bolsonaro negociando nada menos que R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, banqueiro dono do Master, preso após um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito. No áudio, o pré-candidato à Presidência cobra do “irmão” o financiamento de um filme biográfico sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A reação no QG da campanha foi de “desorientação”, segundo relatos. O próprio Flávio, confrontado pessoalmente pelo Intercept horas antes da publicação, deu uma gargalhada e se retirou. Depois, chamou o episódio de “um filho procurando patrocínio privado”, explicação que, convenhamos, tem tanto apelo quanto dizer que Macbeth matou o rei apenas para testar a faca.

Tudo isso aconteceu depois que o Datafolha já havia ouvido a maior parte dos seus 2.004 entrevistados. A pesquisa não viu o escândalo. Nasceu velha antes mesmo de ser publicada.

O Empate que Não Diz Nada. E Diz Tudo

Há algo instrutivo, porém, nessa estabilidade dos números. Um empate persistente entre Lula e Flávio, mantido por pesquisas de outros institutos também antes do Bolsomaster, revela que o eleitorado está profundamente dividido e que oscilações pontuais – pelo menos as captadas até agora – não movem agulha dentro da margem de erro.

A próxima pesquisa poderá mostrar dois caminhos para as chances de reeleição de Lula. A otimista: o escândalo do áudio ainda não teve tempo de ser digerido pelo eleitor médio, e os próximos levantamentos poderão mostrar movimento. A pessimista (ou realista): uma parcela do eleitorado de Flávio já precificou o sobrenome Bolsonaro com todas as suas bagagens e, ainda assim, mantém o voto. A lealdade identitária é, muitas vezes, impermeável a manchetes.

A pesquisa de maio não responde a essa pergunta. Ela apenas congela um momento que já passou.

Conclusão: Benjamin Button Ficou Parado no Tempo

Ao contrário do personagem de Fitzgerald, que pelo menos tinha a graça de mudar, mesmo que na direção errada, esta pesquisa permaneceu exatamente igual a si mesma. Chegou velha, foi publicada velha e será aposentada antes de envelhecer de verdade.

Isso não é culpa do Datafolha. É a crueldade do calendário político em semanas de alta densidade informacional. Mas serve de aviso: o retrato que você está vendo hoje não é o Brasil de hoje. É o Brasil de antes do áudio, tirado no exato momento em que a tempestade ainda não havia chegado, e só revelado já depois da chuva.

A próxima pesquisa, essa sim, terá algo a nos dizer.

Artigo de opinião. As análises aqui expressas refletem a visão do autor sobre os fatos noticiados.

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